20 de janeiro: Consciência Indígena, AIMBERÊ, a Guerra dos Tamoios e o protagonismo das mulheres indígenas.

aapsa artigo jorgete aimbere

Durante muito tempo, nos ensinaram a olhar para o mundo a partir de uma única direção. Uma direção que hierarquiza saberes, silencia povos e transforma a natureza em recurso,  nunca em família.

Aqui começa uma história que os livros didáticos não contam, exatamente por conta da colonialidade que perdura em nosso território até os dias atuais. Quando eu digo “nosso território”, estou dizendo que todo território desse continente “americano” é território indígena, e que a partir da chegada dos espanhóis, em 1492, esse imenso continente foi banhado de sangue.

Por isso, a pergunta que precisamos fazer hoje não é apenas o que sabemos, mas: quais epistemologias escolhemos legitimar?

No Brasil, território de ABYA YALA, de Pindorama, somos herdeiros da maior diversidade étnica do planeta e de uma das maiores biodiversidades da Terra. Ainda assim, segue-se reproduzindo um modelo de desenvolvimento que concentra riqueza em maior parte no Norte global e deixa, aqui, a devastação ambiental, o racismo ambiental, a exclusão e a miséria.

Não é coincidência. É projeto.

O dia 20 de janeiro, marcado pela memória do cacique AIMBERÊ, líder indígena que resistiu à invasão colonial no século XVI, não é apenas uma data histórica. É um marco de consciência.

No território que hoje chamamos Rio de Janeiro, o encontro entre portugueses e o povo TUPINAMBÁ, em 1504, não foi pacífico nem ingênuo. Desde as primeiras tentativas de ocupação, com feitorias erguidas em Cabo Frio por Américo Vespúcio, houve resistência organizada. As estruturas coloniais foram destruídas pelos Tupinambás e outros povos indígenas que o Cacique AIMBERÊ reuniu a favor da vida de mais de 1.400 etnias (Nimuendaju, 1981), compreendendo 5 milhões de pessoas (Denevan, 2003) vivendo neste solo , que se recusaram à escravização e à expropriação de suas terras ancestrais.

Ao longo de quase sete décadas, nós, povos indígenas, hoje, 391etnias, resistimos à violência colonial, mesmo diante de acordos intermediados por missionários católicos como Manoel da Nóbrega e José de Anchieta, que nos odiavam, cujo projeto era transformar indígenas em “cristãos dóceis” e mão de obra escravizada. A resistência não cessou.

Diante da brutalidade portuguesa, Cunhambebe e o cacique AIMBERÊ lideraram a Confederação dos Tamoios, uma aliança inédita entre povos indígenas do litoral sudeste, que enfrentou o avanço colonial entre 1560 e 1572. A Guerra dos Tamoios não foi apenas um conflito armado: foi uma afirmação coletiva de luta por existência, autonomia, território e modo de vida.

A história oficial tentou apagar essa insurgência — assim como tentou silenciar as mulheres indígenas.

Nós mulheres originárias fomos violentadas desde a invasão: sequestros e estupros atravessam memórias familiares até hoje, muitas vezes romantizados em narrativas como a da ancestral “sua avó foi pega no laço”. Mas, apesar da violência, a resistência feminina nunca deixou de existir.

POTIRA, filha de AIMBERÊ, morreu lutando na Guerra dos Tamoios. Quantas outras mulheres indígenas resistiram e tiveram suas histórias apagadas? Quantas heroínas sustentaram a vida, a cultura e a luta sem jamais serem nomeadas?

Hoje, seus legados seguem vivos em mulheres como  Pietra Dolamita APURINÃ, TUYRE KAYAPÓ, Joenia WAPICHANA, Sônia GUAJAJARA, Célia XAKRIABÁ, Alesssandra MUNDURUKU, Jennyfer TUPINAMBÁ, Valdenice TUPINAMBÁ, Índia Cabo Verde (minha bisavó PURI), Maria PURI (minha avó), PONAN XIPU PURI (minha Cacica), eu MBAIMA MONTAY PURI, entre tantas outras em ABYA YALA. Nos territórios e fora deles, mulheres indígenas constroem organizações, formam alianças e protagonizam transformações políticas, sociais e culturais.

Como reconhece a CEPAL – Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (2014), o protagonismo das mulheres indígenas nos processos de mudança na relação entre povos indígenas e Estados é inquestionável — especialmente por nossa capacidade de articulação em níveis locais, nacionais e internacionais.

Valorizar a história de AIMBERÊ, da Guerra dos Tamoios e das mulheres indígenas não é revisitar o passado: é reconhecer que o Brasil só existe porque houve resistência indígena, negra e tradicional.

Honrar esses saberes e ancestrais é um passo necessário para romper paradigmas coloniais e nos aproximar do bem viver, um futuro onde diversidade, território e dignidade não sejam exceção, mas fundamento.

AIMBERÊ não lutou apenas por território. Lutou por modo de vida, por cosmovisão, por um entendimento de mundo onde terra, pessoas e espírito não se separam.

Quando falamos em Consciência Indígena, falamos de um saber que:

  • não dissocia natureza e humanidade
  • não hierarquiza vidas
  • não entende progresso como destruição

Como mulher indígena PURI, Curadora Ancestral de Ciclos, Conselheira, Diretora Nacional DE&I na AAPSA, Fundadora do método ambo (árvore), atuante em espaços de governança e gestão, afirmo: não há futuro sustentável sem a inclusão real dos saberes tradicionais. Aliás, não há futuro sem tais saberes.

Decolonizar o pensamento, como nos lembram autoras como Catherine Walsh, não é rejeitar o conhecimento acadêmico, mas ressignificá-lo, enriquecê-lo com as inteligências ancestrais que sempre estiveram aqui.

No campo da diversidade, equidade e inclusão, isso exige mais do que políticas. Exige escuta histórica, reparação simbólica e coragem institucional para reconhecer que o conhecimento indígena não é folclore — é tecnologia de sobrevivência.

Celebrar o 20 de janeiro é reconhecer que a luta indígena não pertence ao passado. Ela pulsa no presente e aponta caminhos para o futuro.

Enquanto continuarmos chamando Pindorama de “descoberta” e Abya Yala de “novo mundo”, seguiremos presos a uma narrativa que nos afasta de quem realmente somos.

Consciência indígena é, antes de tudo, um convite: lembrar da terra como origem, não como mercadoria.

MBAIMA MONTAY
Indígena PURI, Curadora Ancestral de Ciclos, Conselheira C101, Fundadora de AMBO, Palestrante, Escritora, Diretoria Nacional DE&I AAPSA

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