
Falar de Janeiro Branco é, antes de tudo, falar de vida psíquica, de sofrimento humano e da forma como o trabalho atravessa, e muitas vezes marca profundamente, a subjetividade das pessoas. Não se trata apenas de uma campanha simbólica que inaugura o ano, mas de um convite ético à reflexão sobre como estamos vivendo, trabalhando e nos relacionando dentro das organizações.
Os dados reforçam aquilo que escutamos cotidianamente nos consultórios, nas supervisões e nos ambientescorporativos. Segundo a Organização Mundial da Saúde, os transtornos mentais estão entre as principais causas de afastamento do trabalho no mundo. No Brasil, informações do INSS mostram um crescimento expressivo dos afastamentos por transtornos mentais e comportamentais, com destaque para quadros de depressão, ansiedade, síndrome de burnout e transtornos relacionados ao estresse.
Estima-se, ainda, que a depressão e a ansiedade gerem uma perda global de aproximadamente um trilhão de dólares por ano em produtividade, evidenciando que a saúde mental não é apenas uma pauta individual, mastambém organizacional, social e econômica.
Do ponto de vista da psicanálise e da psicologia organizacional, o trabalho ocupa um lugar central na constituição do sujeito. Ele pode ser fonte de sentido, pertencimento e realização, mas também pode se transformar em espaço de violência simbólica, silenciamento e esgotamento emocional. Metas inalcançáveis, excesso de demandas, jornadas prolongadas, lideranças despreparadas, ausência de reconhecimento, medo constante de errar ou de perder o emprego e ambientes marcados pela insegurança psicológica produzem, ao longo do tempo, um desgaste que vai muito além do cansaço físico.
O sofrimento psíquico no trabalho raramente se apresenta de forma abrupta. Ele costuma surgir de maneira silenciosa, naturalizado no cotidiano organizacional, aparecendo sob a forma de cansaço crônico, irritabilidade, adoecimentos físicos recorrentes, queda de desempenho, desinvestimento afetivo ou sensação constante de inadequação. Quando não há espaço para a palavra, para a escuta e para a elaboração, o corpo e a psique acabam falando.
Por isso, falar de prevenção em saúde mental não significa apenas realizar campanhas pontuais ou ações isoladas. Prevenir é repensar modelos de gestão, relações de poder, estilos de liderança e, sobretudo, a forma como o sofrimento é reconhecido ou negado dentro das organizações. A prevenção começa quando as empresascompreendem que pessoas não são apenas recursos produtivos, mas sujeitos atravessados por histórias, afetos, limites e vulnerabilidades.
Nesse cenário, o RH ocupa um lugar absolutamente estratégico. É o RH que pode atuar como ponte entre a gestão e as pessoas, ajudando a transformar discursos em práticas concretas. Cabe a esse campo promover políticas de prevenção ao adoecimento mental, fortalecer ambientes de segurança psicológica, capacitar lideranças para umagestão mais consciente e ética, criar espaços de escuta e acolhimento, utilizar dados para mapear riscos psicossociais e articular redes de cuidado com profissionais especializados.
Quando o RH assume esse papel, deixa de atuar apenas de forma operacional e passa a exercer sua função mais nobre: cuidar das relações humanas dentro do trabalho.
É igualmente importante reforçar que buscar ajuda psicológica ou psicanalítica não é sinal de fraqueza, mas deresponsabilidade consigo mesmo. A clínica nos mostra diariamente o quanto o sofrimento tende a se intensificar quando não encontra espaço de elaboração. A psicoterapia oferece um lugar de escuta qualificada, onde é possível nomear dores, compreender repetições, ressignificar experiências e fortalecer recursos psíquicos, sendo fundamental tanto na prevenção quanto no tratamento do adoecimento mental.
Para quem está em São Paulo, existem opções de atendimento psicológico gratuito, como os Centros de Atenção Psicossocial vinculados ao SUS e o Centro de Valorização da Vida, que oferece atendimento emocional gratuito, vinte e quatro horas por dia, pelo telefone 188 ou via chat online.
Por meio do Janeiro Branco, a AAPSA reafirma seu compromisso permanente com a saúde mental, o bem-estar e a felicidade nas organizações. Mais do que uma ação concentrada em um único mês, este é um tema que orientanossas iniciativas ao longo de todo o ano, apoiando os profissionais de RH e promovendo reflexões profundas sobre o presente e o futuro do trabalho.
Cuidar da saúde mental é cuidar de pessoas, de vínculos e da sustentabilidade das organizações. É reconhecer que não há resultados consistentes sem sujeitos emocionalmente saudáveis. Seguimos juntos, promovendo escuta, prevenção e responsabilidade com a saúde psíquica no trabalho.
Fontes e referências
Organização Mundial da Saúde. Mental health at work. WHO, 2022. Organização Internacional do Trabalho.Mental health at work: Policy brief. 2022.
Instituto Nacional do Seguro Social. Dados sobre afastamentos por transtornos mentais e comportamentais. Ministério da Previdência Social, Brasil.
Ministério da Saúde. Política Nacional de Saúde Mental e Atenção Psicossocial. Brasil.
Sirley Carvalho
• Psicanalista
• Mestre em Psicologia Social e Organizacional Diretora de Saúde Mental, Bem-Estare Felicidade
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