A empresa onde você atua está preparada para incluir pessoas indígenas nela?

Inclusão também exige espaço para outras formas de conhecer o mundo.

“O tempo está ruim.”

Parece uma frase banal.

Para mim, enquanto mulher indígena PURI, não é.

Há algum tempo tenho feito uma pergunta às lideranças e fundadores de organizações: sua empresa está preparada para ter pessoas indígenas nela?

Quando empresas começam a pensar em contratação e inclusão de pessoas indígenas, muitas vezes a discussão se concentra no corpo indígena: como ampliar a presença, criar oportunidades, contratar, reter, representar.

Tudo isso importa.

Mas contratar pessoas indígenas pode significar muito mais do que permitir que nossos corpos ocupem espaços dos quais historicamente estivemos ausentes.

Pode significar estar preparado para encontrar outras formas de compreender os negócios, a produção, as relações, a Terra e a própria ideia de desenvolvimento.

E isso exige mais do que inclusão.

Exige disposição para ser questionado, quando uma frase não significa a mesma coisa para todos.

Há alguns dias chove torrencialmente em uma das regiões da Mata Atlântica, onde vivo.

Enquanto observava a chuva, pensei em algumas expressões que escuto com frequência inclusive em ambiente corporativo: “o tempo está ruim”, “detesto chuva”, não gosto de dias chuvosos”.

Houve um tempo da minha vida em que vivi com minha família, no aldeamento, no interior do interior do interior de Minas Gerais.

Foi ali que aprendi com meus avós e com minha família a observar o tempo.

Quando volto às minhas lembranças, não me recordo de ouvir meu pai, minha mãe, meus avós ou minhas tias dizerem que o tempo estava ruim ou que o dia estava feio.

Aprendi que há tempo de chuva, tempo de seca, tempo de calor e tempo de frio.

Há tempo em que a terra precisa de água.

Há tempo em que precisa de sol.

Há ciclos necessários à vida — humana e não humana.

Isso não significa que eu desconheça os inconvenientes ou restrições da chuva.

Quando vivi em São Paulo, muitas vezes levantava às quatro e meia, cinco horas da manhã, para estudar ou trabalhar. Nem sempre tinha roupas ou calçados adequados para a chuva e para o frio. Às vezes me molhava pelo caminho e ainda precisava chegar ao trabalho com a aparência esperada de uma mulher executiva.

Conheço o incômodo. Conheço a dificuldade.

E prefiro os dias de sol, inclusive porque eles me dão mais mobilidade.

Mas existe uma diferença entre dizer: “Devido à chuva, precisei mudar meu planejamento” e dizer: “A chuva estragou minha agenda da semana”.

A primeira frase fala da experiência de uma pessoa que compreende o tempo. A segunda coloca a experiência humana como medida para julgar a natureza.

Para mim, enquanto mulher indígena, essa diferença importa.

Porque o tempo não existe para a conveniência humana.

O que chamamos de “recurso”?

Essa diferença de visão não termina na chuva.

Ela entra nas empresas.

No universo corporativo e industrial, aprendemos a utilizar determinadas palavras com tanta naturalidade que raramente paramos para pensar na visão de mundo que elas carregam.

Fala-se em recursos hídricos.

Mas aquilo que a linguagem empresarial chama de recurso hídrico é para nós povos indígenas, rio, território, vida, ancestralidade, espírito — uma relação que não cabe inteiramente na categoria econômica de “recurso”.

Para nós PURI, os rios são anciãs, são espíritos, são aquelas de quem dependemos.

Da mesma maneira, aquilo que vem da terra — alimento, algodão, soja, madeira, ouro e tantos outros elementos — entra nos sistemas produtivos sob categorias como matéria-prima e insumo.

Essas palavras cumprem funções técnicas e econômicas.

O problema começa quando a categoria técnica passa a ser a única maneira pela qual conseguimos enxergar aquilo que nomeamos.

Uma árvore pode fornecer madeira.

Mas ela não é apenas madeira.

Um rio pode fornecer água para um processo produtivo.

Mas ele não é apenas um recurso hídrico.

O ouro pode entrar numa cadeia produtiva e se transformar em joia, componente ou ativo econômico.

Mas aquilo que foi retirado da Terra não começou a existir no momento em que entrou numa planilha ou num software.

Nenhuma cadeia de valor começa na inteligência artificial.

Antes do preço, da margem, da produção, da distribuição e do resultado, existe matéria orgânica.

Existe água.

Existe terra.

Existe vida.

Contratar uma pessoa indígena também significa permitir perguntas

É aqui que volto à inclusão.

Uma organização pode desejar contratar pessoas indígenas e, ao mesmo tempo, estar preparada apenas para assimilar essas pessoas à visão de mundo que já existe dentro dela.

Nesse caso, o corpo entra.

O currículo entra.

A competência profissional entra.

Mas o conhecimento que aquela pessoa carrega precisa permanecer do lado de fora.

Isso é suficiente?

Acredito que não.

Diversidade que exige que o outro abandone sua forma de compreender o mundo para ser aceito não é inclusão. É assimilação. É continuidade de apagamento histórico.

Ter pessoas indígenas dentro das organizações significa também estar disposto a encontrar conhecimentos que podem questionar conceitos que pareciam estabelecidos.

Pode significar ouvir alguém perguntar: Por que chamamos um rio de recurso? Por que tratamos aquilo que a Terra oferece apenas como matéria-prima? Que relação existe entre produção e território? O que estamos transformando — e a que custo? Para quem estamos produzindo? O que uma decisão empresarial sustenta além do resultado financeiro?

Essas perguntas não precisam substituir o conhecimento financeiro, industrial, tecnológico ou de gestão.

Elas podem ampliá-lo.

E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores contribuições da diversidade para uma organização: não apenas colocar pessoas diferentes ao redor da mesma mesa, mas permitir que a própria mesa seja questionada.

Sua empresa está preparada?

Incluir pessoas indígenas não é apenas abrir vagas para pessoas indígenas.

É criar condições para que elas não precisem deixar do lado de fora aquilo que sabem, aquilo que aprenderam com seus povos e aquilo que enxergam a partir de outras relações com o mundo.

É estar disposto a escutar.

É estar disposto a aprender.

E também a revisitar conceitos que durante muito tempo pareceram incontestáveis.

Por isso, talvez a pergunta “Sua empresa está preparada para ter pessoas indígenas nela?” precise ser acompanhada de outra: “Sua organização está preparada apenas para receber pessoas indígenas ou também para ser transformada pelos conhecimentos que chegam com elas?”

Porque diversidade não deveria significar trazer pessoas diferentes para dentro e ensiná-las a enxergar exatamente como aqueles que já estavam ali.

Talvez diversidade também seja permitir que novas presenças façam enxergar aquilo que, de tão naturalizado, já não conseguem ver.

Hoje, enquanto ouço a chuva cair na Mata Atlântica, lembro do que aprendi quando criança: “nós dependemos da terra, do tempo”.

E tudo que tem vida se transforma.

mbaima montay puri

Diretora Nacional de DEI – AAPSA

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