Quem decide o futuro? O que quatro painéis me ensinaram sobre o gargalo real da IA

Henrique Calandra no palco do 1º Fórum Executivo CEOs & CHROs da AAPSA, diante do telão com a pergunta Quem decide o futuro?
1º Fórum Executivo CEOs & CHROs da AAPSA. Champions League Experience, São Paulo, 27 de agosto de 2026.

02 de setembro de 2026. Por Henrique Calandra, sobre o 1º Fórum Executivo CEOs & CHROs da AAPSA, realizado no Champions League Experience, em São Paulo, no dia 27 de agosto de 2026.

No dia 27 de agosto, o Champions League Experience, em São Paulo, recebeu o 1º Fórum Executivo CEOs & CHROs da AAPSA. O tema no telão era uma pergunta, não uma afirmação: Quem decide o futuro? O subtítulo completava a provocação: RH além do óbvio.

Fui convidado para falar de inteligência artificial. Preparei a fala imaginando que seria a voz da tecnologia numa agenda sobre gente. Aconteceu o contrário. Ao longo do dia, quatro painéis sobre temas completamente distintos foram convergindo para o mesmo lugar, e esse lugar não era a tecnologia.

Escrevo esta coluna para registrar o que levei ao palco e, principalmente, o que a soma do dia deixou claro para quem lidera pessoas.

O dinheiro entrou e o resultado não saiu

Comecei com uma pergunta desconfortável para quem assina orçamento.

Você aprovou investimento em IA nos últimos dois anos. Provavelmente aprovou mais de uma vez. Agora responda: consegue apontar uma linha do seu P&L que mudou por causa disso?

Se a resposta demora, não é porque a IA não funciona. A IA funciona. O que não funciona é comprar capacidade e chamar isso de estratégia.

Existe uma confusão cara acontecendo no mercado brasileiro. Empresas estão tratando IA como capex de tecnologia quando IA é, na prática, mudança de modelo operacional. Capex você aprova, instala e mede em doze meses. Modelo operacional você redesenha, e ele passa por processo, por decisão, por poder e por cultura. São dois jogos diferentes, com dois donos diferentes. É por isso que tanto projeto morre na metade: foi aprovado por um CEO, executado por TI e nunca teve um dono no negócio.

Quadro comparativo entre tratar IA como capex de tecnologia e tratar IA como mudança de modelo operacional

E aqui está o ponto que mais interessa a esta associação. Quando IA vira mudança de modelo operacional, o gargalo deixa de ser tecnologia e passa a ser gente. Ou seja, o ROI de IA passou a ser responsabilidade compartilhada com o RH. É a maior oportunidade que essa função teve em vinte anos, e boa parte do mercado ainda não percebeu.

Onde o ROI vaza: os 4 Ps

Quando analiso projetos que não entregaram, o vazamento está sempre em um destes quatro pontos.

  1. Propósito. Não existe métrica de negócio nomeada. “Usar IA” não é objetivo, é atividade. Se ninguém consegue dizer qual número deveria mudar, ninguém vai cobrar quando ele não mudar.
  2. Processo. A IA foi colocada em cima do fluxo antigo. Você automatizou doze etapas que deveriam ter virado quatro. Isso não é ganho, é maquiagem cara. Automatizar um processo ruim entrega apenas um processo ruim mais rápido.
  3. Pessoas. Licença distribuída não é adoção. Sem capacitação e sem tempo protegido para aprender, o uso cai depois de três semanas e a empresa segue pagando a assinatura.
  4. Política. Sem regra clara sobre dado, risco e o que a máquina decide sozinha, ou o time trava com medo ou avança sem rede.
Os 4 Ps onde o ROI de IA vaza: Propósito, Processo, Pessoas e Política

Na prática, quase nunca falha o primeiro. Falha Pessoas e falha Política. Ou seja, falha exatamente na agenda que estava sentada naquela plateia.

A variável que nenhum business case tem

Dentro do P de Pessoas mora a variável que ninguém coloca na planilha: confiança.

Nenhuma tecnologia gera retorno se o time não confia nela. E confiança em IA não se resolve com comunicado interno. Ela depende de três coisas muito concretas: transparência sobre o que a máquina faz e o que ela não faz, clareza sobre o que acontece com o emprego das pessoas, e liderança usando de verdade, não apenas patrocinando no slide.

Sem isso, o cenário mais comum não é rejeição aberta. É pior. É uso escondido. A empresa paga a licença, não vê o ganho e ainda perde a visibilidade do risco.

IA como colega, não como ferramenta

Por isso defendo uma mudança de vocabulário que muda a prática: pare de tratar IA como ferramenta e comece a tratar como colega de trabalho.

Ferramenta você compra, instala e espera funcionar. Colega você contrata, faz onboarding, dá contexto, dá feedback, define alçada e desenvolve ao longo do tempo.

Fluxo comparando o ciclo de uma ferramenta com o ciclo de um colega de trabalho: contratar, onboarding, contexto, alçada, uso, feedback e ajuste

É aqui que morre a ideia de bala de prata. Não existe plug and play em IA. Nenhum colaborador entrega o melhor dele no primeiro dia, e com IA é igual. O que existe é desenvolvimento contínuo: ciclo de uso, feedback e ajuste, todo mês um pouco melhor. Quem espera resultado da segunda para a terça cancela o projeto no mês três, justamente quando ele começaria a render.

Tem um pré-requisito duro nisso, e é o trabalho invisível que separa quem terá ROI de quem não terá. Seu colega novo é tão bom quanto o contexto que você dá para ele. Se o conhecimento da empresa está na cabeça de doze pessoas e em duzentas planilhas soltas, nenhum modelo salva.

Se todo mundo tem a mesma IA, o que sobra de vantagem competitiva?

Fechei a fala com a parte que considero mais estratégica para um fórum de CEOs e CHROs.

Se todo mundo tem acesso ao mesmo modelo de ponta, pelo mesmo preço, no mesmo dia, então o modelo não é vantagem competitiva. É commodity. É energia elétrica.

Com o modelo de ponta virando commodity, a vantagem competitiva fica no conhecimento, nos processos e nas pessoas e cultura

O que sobra de diferença entre você e seu concorrente são três coisas: o conhecimento que só você tem, os processos que só você desenhou, e as pessoas e a cultura que fazem esses dois evoluírem.

Quanto mais poderosa a IA fica, mais o fator humano vira o diferencial. Parece contraintuitivo e é exatamente o oposto do que o mercado está vendendo.

O dia inteiro estava dizendo a mesma coisa

O que mais me chamou atenção foi perceber que eu não estava sozinho nessa conclusão. Olhando a grade do fórum de trás para frente, os quatro painéis são a mesma pergunta em quatro roupas diferentes.

  • “CEO & CHRO: quem lidera a transformação?”, com mediação de Chris Pelajo, da CNBC. Parece pergunta de política interna, mas é a pergunta do dono de resultado. Transformação sem dono nomeado não acontece, e IA é o caso mais caro disso hoje.
  • “A crise global de liderança executiva”, com mediação de Veruska Donato. Se existe crise de liderança num momento em que a tecnologia nunca esteve tão disponível, fica difícil sustentar que o problema é falta de ferramenta.
  • “Performance vs Sustentabilidade Humana”, com mediação de Carol Romano. Esse painel é a versão humana do meu argumento sobre plug and play. Ganho de produtividade que queima gente não é ganho, é antecipação de custo.
  • “Inteligência Artificial e o Futuro da Liderança”, com mediação de Renata Camargo. O fórum colocou IA dentro da conversa de liderança, e não dentro da conversa de sistemas. Isso, por si só, já é a resposta certa.

E o keynote internacional fechou o argumento melhor do que eu conseguiria. A palestra sobre as sete armadilhas, baseada no trabalho de David M. R. Covey e Stephan Mardyks, trouxe os dados que explicam por que tanta transformação trava: cerca de 85% dos trabalhadores no mundo se declaram desengajados, e apenas cerca de 10% dos funcionários entendem de fato a estratégia da própria empresa.

Pense nisso com calma. Se 9 em cada 10 pessoas não entendem para onde a empresa vai, qualquer ferramenta que você distribuir vai ser usada sem direção. Você não tem um problema de IA, você tem um problema de clareza. E a frase de encerramento foi direta: não terceirize sua liderança para a IA, porque pessoas não seguem algoritmos, seguem humanos.

O que eu levo do fórum

Se eu tivesse que responder a pergunta do telão em uma frase, seria esta: quem decide o futuro não é quem tem a melhor IA, é quem constrói a cultura capaz de usá-la.

E a decisão que proponho a quem estava naquela sala não custa orçamento novo. É nomear um dono de negócio para IA, com uma métrica e um prazo. Não um dono de TI. Um dono de resultado.

Enquanto IA for tratada como projeto de tecnologia, ela vai continuar aparecendo no balanço apenas como custo. No dia em que virar agenda de gente, vira retorno.

Meu agradecimento à AAPSA pelo convite e pela ousadia de montar um fórum que colocou CEO e CHRO na mesma sala para discutir a mesma pergunta. Foi um dos debates mais honestos de que participei este ano, e é exatamente esse tipo de conversa que empurra a nossa profissão para além do óbvio.



Sobre o autor: Henrique Calandra é Founder do WallJobs, HR Tech com mais de 11 anos de mercado, 500+ empresas clientes e 2 milhões de candidatos na base. Ex-aluno de Harvard (Marketing Management e International Marketing) e autor do livro IA para RH na Prática. O conteúdo desta coluna representa a opinião do autor.

Fontes

  • AAPSA, 1º Fórum Executivo CEOs & CHROs, programação, painéis e mediadores: aapsa.org.br/evento/forum-executivo
  • Keynote “The Seven Traps”, baseado em Trap Tales, de David M. R. Covey e Stephan Mardyks
  • Dados de desengajamento global citados no keynote, com base na pesquisa anual State of the Global Workplace, Gallup: gallup.com

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