Por Diretoria de Saúde Mental, Bem-Estar e Felicidade – AAPSA
O Dia do Trabalho, celebrado em 1º de maio, sempre foi um marco de conquistas. Direitos garantidos, jornadas reguladas, condições mínimas asseguradas. Mas, em 2026, somos chamados a ampliar esse olhar. Porque já não basta falar de trabalho apenas como produção. É preciso falar de trabalho como experiência humana. E essa experiência, hoje, revela sinais claro de esgotamento.
O Brasil já ultrapassa a marca de meio milhão de afastamentos por transtornos mentais em um único ano. Ansiedade, depressão, estresse crônico e burnout deixaram de ser fenômenos periféricos e passaram a ocupar o centro das relações de trabalho. Não são mais exceção. São sintoma. Sintoma de um modelo que, por muito tempo, priorizou resultado sem considerar o custo psíquico. Sintoma de ambientes onde a pressão é constante, a escuta é escassa e o erro não é tolerado. Sintoma de organizações que evoluíram em tecnologia, mas ainda caminham na construção de relações mais sustentáveis.
É nesse contexto que a saúde mental deixa de ser um tema complementar e passa a ser uma questão estrutural.
A NR-01 e a formalização de uma nova responsabilidade
A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-01) marca um ponto de inflexão importante.
Ao incluir os riscos psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, a norma reposiciona o cuidado com a saúde mental dentro das organizações. Não mais como iniciativa voluntária, mas como responsabilidade objetiva. Isso significa reconhecer que fatores como sobrecarga, metas desproporcionais, relações tóxicas, assédio moral, ausência de suporte e falta de clareza de papéis são riscos organizacionais que impactam diretamente a saúde dos trabalhadores e os resultados das empresas.
Pela primeira vez, o invisível passa a ser tratado com a mesma seriedade que os riscos físicos. E isso muda tudo: muda a forma como as empresas precisam se estruturar, o papel das lideranças, o lugar do RH e a forma como compreendemos o sofrimento no trabalho. A partir de agora, não basta dizer que cuida, será preciso demonstrar como cuida.
Saúde mental como estratégia de negócio
Durante anos, o cuidado com o bem-estar esteve associado a ações pontuais. A NR-01 rompe com essa lógica e exige consistência, método e continuidade. Isso implica diagnosticar riscos psicossociais, implementar planos de ação, acompanhar indicadores, desenvolver lideranças e criar espaços reais de escuta. Ou seja, integrar a saúde mental à estratégia organizacional.Empresas que não fizerem esse movimento não estarão apenas desatualizadas, estarão expostas a passivos trabalhistas, perda de talentos e culturas fragilizadas. Por outro lado, aquelas que compreendem essa transformação têm a oportunidade de construir ambientes mais saudáveis, produtivos e sustentáveis. Cuidar da saúde mental deixa de ser um gesto de boa vontade e passa a ser uma decisão estratégica.
Segurança psicológica: onde a transformação realmente acontece
Se a norma estabelece o que precisa ser feito, a segurança psicológica sustenta como isso acontece. Ambientes psicologicamente seguros são aqueles onde as pessoas podem s posicionar sem medo, aprender com erros e contribuir de forma genuína. Sem essa base qualquer política se torna superficial.
É possível ter programas estruturados e ainda assim conviver com equipes silenciadas e desgastadas. Porque, no fim, o que determina a experiência das pessoas não é apenas o que está escrito, mas o que é vivido. E aqui surge um dos maiores desafios atuais: a liderança. Ainda vemos líderes preparados tecnicamente, mas pouco desenvolvidos emocionalmente.
O reposicionamento do RH: entre o cuidado e o negócio
A implementação da NR-01 redefine o papel do RH. O RH passa a ocupar um lugar estratégico na gestão de riscos psicossociais, integrando cultura, processos e resultados. Isso exige leitur de contexto, capacidade de influência e articulação entre áreas. Não se trata de escolher entr cuidado e resultado, mas de compreender que um sustenta o outro.
O que o Dia do Trabalho nos pede em 2026
Que tipo de trabalho estamos construindo? Um trabalho que adoece ou que sustenta? Que silencia ou que escuta? A transformação não está apenas na norma, mas nas escolhas diárias. Porque, no final, o que está em jogo não é apenas desempenho, é a possibilidade de existir no trabalho sem abrir mão de si.
Reconhecer que produtividade sustentável só é possível quando há saúde é talvez o maior convite deste momento. Cuidar da saúde mental não é mais acessório. É estratégia.
Sirley Carvalho
Diretora de Saúde Mental, Bem-Estar e Felicidade – AAPSA
Psicanalista | CEO da Merhcado Gestão de Carreita
Cuidar da alma humana também é estratégia.
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