Por Wesley Humassa, psicólogo (CRP 24/4681) e Coordenador Geral do Conselho Regional de Psicologia da 24ª Região (Rondônia e Acre).
Gestão de Pessoas para além dos processos administrativos
A Gestão de Pessoas ocupa uma posição estratégica nas organizações contemporâneas, ultrapassando os limites das atividades administrativas para integrar os processos de desenvolvimento, tomada de decisão e consolidação institucional. Essa perspectiva exige compreender as pessoas não apenas como força de trabalho, mas como sujeitos cujas trajetórias e possibilidades de atuação são atravessadas por fatores sociais, culturais e institucionais.
Nesse contexto, a gestão na contemporaneidade também precisa ser analisada a partir das relações de poder que permeiam as organizações. Os critérios de reconhecimento, promoção, participação e distribuição de oportunidades não são neutros: expressam escolhas que podem ampliar a equidade ou reproduzir desigualdades. Como discute Édison Gastaldo (2008), ao analisar a obra de Erving Goffman no artigo Goffman e as relações de poder na vida cotidiana, o poder também se manifesta nas interações cotidianas, influenciando a legitimidade atribuída a determinados discursos e posições sociais. Essa perspectiva permite compreender que as hierarquias institucionais não se limitam aos cargos formalmente ocupados, mas também se expressam nas relações, nos comportamentos e nas possibilidades de participação.

Entre gerações, vínculos e transformações no trabalho
Outro aspecto relevante para a Gestão de Pessoas diz respeito à coexistência de diferentes modalidades de contratação e às implicações que a informalidade produz nas relações de trabalho, especialmente pela fragilização de direitos, pela insegurança profissional e pela dificuldade de estabelecer vínculos duradouros. Soma-se a isso a transformação cultural na maneira como as diferentes gerações compreendem o trabalho, a autoridade e o compromisso profissional. Enquanto parte das gerações anteriores tende a valorizar o sacrifício, a permanência prolongada nas organizações e a obediência hierárquica, frequentemente associados à ideia de que o trabalho dignifica por meio da renúncia pessoal, as novas gerações demonstram maior disposição para questionar modelos de gestão, estabelecer limites e buscar equilíbrio entre vida profissional e pessoal.
Essa transformação cultural também encontra expressão no debate sobre a jornada de trabalho. Em 14 de outubro de 2026, o Senado Federal aprovou, em dois turnos, a PEC 221/2019, que prevê o fim da escala 6×1, a redução da jornada semanal para até 40 horas e a garantia de dois dias de descanso remunerado, sem redução salarial. A proposta segue para promulgação. A decisão reforça a relevância de discutir os limites entre produtividade, tempo de descanso e qualidade de vida, evidenciando que o compromisso profissional não deve ser medido pela renúncia permanente ao convívio familiar, ao lazer e ao desenvolvimento pessoal.
Nesse cenário, comportamentos antes interpretados como insubordinação podem expressar tanto conflitos de adaptação às hierarquias tradicionais quanto reivindicações por relações de trabalho mais respeitosas e transparentes. Isso não significa desconsiderar a responsabilidade profissional ou a importância da disciplina institucional, mas reconhecer que o compromisso não deve ser confundido com submissão, tampouco a dedicação com a romantização da sobrecarga e da precarização. O desafio das organizações consiste em conciliar responsabilidade, respeito à hierarquia e entrega de resultados com condições dignas de trabalho, relações transparentes e reconhecimento das transformações culturais que atravessam o mundo do trabalho.

Diversidade amazônica e desigualdades institucionais
Na Amazônia, essa discussão adquire particular relevância diante da diversidade sociocultural e das especificidades territoriais que caracterizam a região. A pluralidade de experiências, identidades e modos de vida exige práticas de gestão sensíveis às realidades locais, evitando a reprodução de modelos institucionais que desconsiderem as condições históricas, sociais e culturais dos territórios.
Reconhecer a diversidade amazônica, entretanto, não significa apenas incorporá-la ao discurso institucional. Pressupõe analisar criticamente quem ocupa os espaços de decisão, quais sujeitos têm suas experiências reconhecidas e como as estruturas organizacionais condicionam o acesso às oportunidades. Promover equidade exige compreender as assimetrias de poder que influenciam a participação e o desenvolvimento profissional.
Uma gestão comprometida com o desenvolvimento institucional deve articular planejamento, indicadores e resultados à compreensão das relações humanas e das condições concretas de trabalho e respeito às diversidades. Isso implica reconhecer que a eficiência organizacional não depende exclusivamente de processos bem estruturados, mas também da capacidade de valorizar conhecimentos, ampliar a participação e enfrentar desigualdades.

O desafio de construir instituições mais equitativas
Pensar a Gestão de Pessoas a partir das Amazônias é reconhecer o território como dimensão constitutiva das práticas institucionais. Significa compreender que políticas e estratégias organizacionais precisam dialogar com as realidades em que são implementadas, considerando a diversidade regional e as relações de poder que estruturam as oportunidades.
O desafio contemporâneo consiste em construir instituições capazes de conciliar resultados, responsabilidade social e equidade. Afinal, a forma como uma organização administra suas pessoas revela não apenas suas prioridades estratégicas, mas também os princípios que orientam suas relações e definem as possibilidades de participação de seus diferentes sujeitos.
Ao final, mesmo diante das transformações tecnológicas, das novas configurações do trabalho e das complexas relações de poder que atravessam as instituições, uma questão permanece: até que ponto as organizações reconhecem as pessoas como seu principal recurso de gestão? Essa, entretanto, é uma discussão que deixaremos para um próximo artigo.
Referência
GASTALDO, Édison. Goffman e as relações de poder na vida cotidiana. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 23, n. 68, out. 2008. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbcsoc/a/GSnnXYtjYwVXYpLLkDWRW4w/. Acesso em: 14 out. 2026.
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